sábado, 27 de fevereiro de 2010




EPIC

Capítulo VI
Heróis Também Choram – Parte II

A chuva começou fina. Parecia um lamento dos céus.
Logo, enfurecida, caiu pesadamente acompanhada de raios que iluminavam os morros distantes.
Jade já tinha tentado uma vasta gama de seu conhecimento naquela tranca. Os selos já haviam modificado dezenas de vezes. A cada uma delas, o desafio ficava maior.
Foi aí que a futura feiticeira planejou uma artimanha que o encantamento não esperava. Ela usou o caminho inverso. Tentou trancar ainda mais o cofre.
Palavras que mesclavam sons de pronúncia aceitáveis uniam-se a outras complexas e um novo selo foi confeccionado. Não há espaço para dois selos numa única tranca. Havia um conflito que foi resolvido com a simples anulação do anterior.
Agora, a moça sabia a combinação e ficou fácil retirar a tranca.
A porta foi silenciosamente aberta e o interior possuía uma sala grande com diversos pedestais onde se encontravam caixas de tamanhos variados. Um em especial chamou atenção com um brilho que saía das cavidades laterais.
O sorriso sombrio tomou conta do rosto da jovem que desviou seus brilhantes olhos esmeralda para seu objetivo.
Enquanto isso, a espera por notícias era agonizante. Ninguém entrava na estalagem do Sr. Zoedim. Ele não era bem um médico. Mas tinha fama pelas cirurgias bem sucedidas.
O estado de Brandi era preocupante. Embora o ferimento não fosse grande, tinha profundidade e atingiu um dos pulmões.
Todas as providências possíveis foram tomadas. Porém, não o suficiente para acabar com o sangramento.
Exatamente doze horas depois de sua entrada, o talentoso ferreiro não suportou e faleceu. Tão rápido como os raios que desenhavam as nuvens, a notícia se espalhou.
O jovem herói caiu em prantos e não desejou ver o pai. Apenas no dia do enterro.
O corpo de Brandi passaria a noite lá. Mesmo após o término do expediente, Gabriel não deixou o local. Ficou sentado no banco de espera olhando para o vazio.
A esposa de Zoedim ofereceu comida que foi recusada com um gesto de cabeça.
A noite foi embora rapidamente e havia o orvalho pesado, seguido do sol preguiçoso que começava a erguer-se no lado leste.
Não tardaram a chegar os primeiros amigos de Brandi. Logo, havia um número considerável de pessoas. Então, Zoedim fez questão de acolhê-los e preparar a saída do corpo.
Não era fácil para o jovem Gabriel olhar o rosto de seu pai. Já era um fardo enorme não ter falado com ele durante todo o processo. Neste instante, uma carruagem surge e pelo brasão visto em sua lateral, somado aos cavaleiros que fazem a segurança, não fica difícil saber que é de Judith. Com a elegância de sempre nos movimentos, mostrando apenas a tristeza em seu semblante, a jovem desce do veículo e vem ao encontro da multidão na esperança de encontrar o filho do falecido.
O tormento em sua mente era tal que Gabriel não notou o tumulto do lado de fora e estava se preparando para ajudar os amigos a levar o corpo para Memoryum, cemitério local.
Longe dali, com a tranca aberta, Jade pode contemplar seu “prêmio”. O cofre esta aberto e a luz que sai do seu interior deixam ainda mais esverdeados os olhos da futura feiticeira. A esfera aproveitava a escuridão para exalar toda sua luz. Jade não queria furtá-la. Curiosa, desejava apenas saber do que se tratava o objeto. Após contemplá-lo por alguns minutos, colocou de volta e fechou tudo. A moça havia esquecido o fato de ter forjado uma nova tranca. Logo, Praiamon saberia que alguém esteve lá e claro que iria questionar a respeito.
Estava com sono e decidiu dormir um pouco. Antes, porém, lavou as mãos e seu rosto. Para seu espanto, seus olhos haviam voltado à cor verde original, onde era possível ver as pupilas. Um sorriso preencheu seu lindo rosto e colocou ainda mais curiosidade na cabecinha da estudante.
Judith encontra Gabriel e nenhuma palavra é pronunciada. Eles se abraçam longamente.
Ela pede aos guardas que coloquem a maca com o corpo na carruagem e seguem em romaria para o enterro, acompanhados pelas pessoas que lotaram a estalagem. Aproximadamente, uma hora depois os preparativos são feitos e Brandi é enterrado conforme seu desejo, enrolado nos lençóis da família com o relógio que ele havia confeccionado.
Quando a maca desce, seu filho olha para a cova e o que vê é o começo de uma nova vida. Agora, está sozinho e deve decidir seu destino. Uma breve espiada no rosto da pessoa que ama e volta a fitar a cova. Os coveiros começam os trabalhos e o vento ajuda, empurrando um pouco da terra para o buraco. Folhas secas despencam das árvores num cenário perfeito para uma tarde de passeio, não fosse o inusitado ato que estava ocorrendo. Quando toda a cova é coberta e a lápide com as inscrições: FERREIRO e BRANDI, FILHO DE LORHAN E ADEIA, seguido pelas datas de nascimento e falecimento é fincada. O violinista Tomb, toca em homenagem ao amigo e as lágrimas começam a rolar pela face de Gabriel.
Um afago doce é sentido, mas a tristeza não passa.
Somente o tempo terá o dom de sarar.
É hora de recomeçar e apenas lembrar-se daquele que tudo lhe ensinou, honrando sua história.

(créditos das imagens: marischmitz.blogspot.com/2009/07/nao-se-engane-eu-tambem-choro.html e sol.sapo.pt/blogs/magoaramando/default.aspx)

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