ALCATEIA
CAPÍTULO 1
BEM-VINDO À FAMÍLIA
-Não sinto nada diferente – disse Thomaz para seus amigos.
-É porque não chegou ainda ao seu coração - advertiu um dos amigos.
-É normal não sentir a língua?
-Há, há, há! Já esta começando - risos diversos.
-Não precisa ficar com os olhos fechados.
-Ok! - suspiro – É estranho! Parece que estou meio bêbado.
-É isso aí, cara! Agora, levante devagar.
Thomaz levantou-se do gramado da faculdade. Mas não conseguiu ficar de pé.
Seus amigos ajudaram, animados com o progresso do que estava por vir.
DUAS HORAS ANTES
-Vamos precisar matar a última aula. Está com agente, Thomaz?
-Claro! Vamos nessa.
Um dia comum na faculdade de Sharaville. Thomaz era calouro. Logo, fez amizade com um grupo de pessoas que se autodenominam Alcatéia. O nome não importava. Bom era ser aceito para não servir de cobaia dos veteranos.
-Porque vamos matar aula?
-É segredo – disse Ralf, segurando um cilindro de metal.
-Esta com medo? – provocou Alan.
-Claro que não. Só queria saber do que se trata.
-Tudo ao seu tempo, meu amigo – um sorriso sinistro formou-se no rosto de Ralf.
Conversa interrompida na hora em que o professor de filosofia entrou.
A aula se arrastava e parecia não ter fim. Até que a sirene ecoou.
A próxima aula era de educação física.
-Vamos logo.
Os alunos foram para o vestiário se trocar. O grupo saiu pelos fundos e já estavam quase no muro quando Audrei chegou.
-Saindo antes da festa terminar, Ralf ?
-O que você tem com isso?
-Olhe como fala, moleque. Vejo que “Os Esquisitos” têm um novo membro. Qual a nome da “moça”?
-Apenas ignorem e continuem andando – disse Ralf.
Audrei disse algo que se perdeu no vento e os amigos continuaram a fuga.
-Quem é esse cara? – perguntou Thomaz.
-Um idiota. Depois conto melhor. Ajudem-me a pular o muro que abro o portão do estacionamento.
Ajudado pelos amigos, Ralf salta sem dificuldades. Portão aberto. Eles chegam ao gramado principal que dá acesso à portaria. A idéia não era sair da faculdade e sim ficar no Campo de Leitura. Lugar chamado assim carinhosamente pelas garotas porque liam lá no período em que a biblioteca ficou em obras. Era um lugar amplo com muita paz.
Procuraram por um canto onde não pudessem ser vistos. A pedra dos namorados era perfeita. Poderiam ficar atrás dela.
-Aqui é perfeito.
-Tem certeza que não irão ver?
-Confie em mim. Fizemos o mesmo com você, Alan.
-Fizeram o que? – preocupou-se, Thomaz.
-Relaxe. Apenas beba isso. – retirou o cilindro do bolso e entregou a Thomaz.
-O que é isso?
-Precisamos ter confiança uns nos outros. Certo?- todos concordaram num gesto de cabeça, exceto Thomaz.
-Sim. Mas não gosto de beber algo que não conheço.
-Eu disse que ele não servia. - disse Heitor.
-Calma pessoal. Thomaz. Achei que queria ser um de nós?
-Quero. Mas...
-Então, prove.
Ainda relutante, pegou o cilindro e olhou fixamente por uns segundos.
-Vai, vai, vai... – o grupo incentivava.
Num gole só tomou tudo. Os amigos comemoraram aos berros.
Thomaz sentiu vontade de vomitar. Mas não o fez. Apenas deitou na grama de costas para o solo. Apagou por uma hora.
Acordou...
-Esta sentindo? – perguntou Alan.
AGORA
-Nossa. Obrigado. Não vejo bem. Tudo esta “rodando” ainda.
-Não se preocupe. – Ralf pediu aos outros que o segurassem firme.
-Caras, eu não estou sentindo minhas pernas.
-Acalme-se. Depois da primeira mordida, será bem-vindo à família.
-O que disse?
A pergunta foi ignorada. O que os olhos de Thomaz viram a seguir foi inenarrável.
A princípio, achou que era efeito do que tinha tomado. Mas procurou olhar melhor mesmo com todo o “tornado” em sua cabeça.
Abriu e fechou seus olhos muitas vezes. Numa destas só pôde ver a boca aberta semelhante à de um cachorro raivoso mordendo seu braço. Queria gritar, mas não tinha forças. Não sentia dor. Seu corpo começou a queimar de dentro para fora e desmaiou.
-E agora? – Heitor perguntou
-É só esperar. – disse Ralf com aquele sorriso sinistro de costume...

